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14.   Teosofia x Ciência


  Antes de ler o ensaio, sugerimos que você visite os links abaixo :

www.sociedadeteosofica.org.br           eubiose.org.br


  O que diz o livro “Fundamentos de Teosofia” sobre o conhecimento ? Vejamos :

  “A Sabedoria em certas circunstâncias, é dada indiretamente, por intermédio de investigações em busca de conhecimentos, inspirando-se em inesperadas descobertas; algumas vezes o é diretamente, como revelação. Esses dois métodos podem ser observados no nosso Século XX. Em certas ocasiões, os Mestres da Sabedoria, encarregados da evolução de tudo que tem vida, transmitem a Sabedoria – a ciência dos fatos – indiretamente, guiando invisivelmente e inspirando os investigadores no domínio da ciência; noutras, dão-na diretamente num corpo de doutrinas conhecido com o nome de Teosofia.
  A Teosofia é, pois, em certo sentido, uma revelação; mas é a revelação de certos conhecimentos, dada pelos que os descobriram aos que ainda não os possuem. Não pode ser a princípio senão uma hipótese para aqueles a quem é oferecida, e para os quais só pela experimentação e pela prática se transformará em conhecimento pessoal.”

  Há portanto uma incompatibilidade básica entre Ciência e Teosofia, uma vez que essa última depende da existência hipotética dos tais “Mestres da Sabedoria”. Além disso, no final do último parágrafo a expressão "conhecimento pessoal" sugere um processo de auto-validação, que, por sua subjetividade, é incompatível com o método científico.

  Vamos usar como exemplo um resumo do que a Teosofia ensina sobre a origem do homem :

  “A evolução da humanidade sobre o planeta Terra será realizada através de sete Raças-Raiz, cada uma dando origem a sete sub-raças. Cada Raça-Raiz é a origem da seguinte, mais evoluída, segundo um determinado plano para a evolução do planeta :

1ª Raça-Raiz = existiu há 300 milhões de anos e não possuía corpo físico.

2ª Raça-Raiz (ou Hiperbórea)

3ª Raça-Raiz (ou Lemuriana) = inicialmente hermafrodita, viveu na Lemúria (no Oceano Pacífico), continente atualmente submerso. Os negros são os descendentes das suas quatro últimas sub-raças.

4ª Raça-Raiz (ou Atlante) = viveu na Atlântida, continente atualmente submerso no Oceano Atlântico. A submersão da Atlântida teria ocorrido há cerca de 12.000 anos atrás. Seus descendentes são os índios das Américas e a raça amarela.

5ª Raça-Raiz (ou Ariana) = estamos vivendo atualmente o período da quinta sub-raça desta Raça-Raiz.

1ª sub-raça = Indo-egípcia
2ª sub-raça = Ário-semita
3ª sub-raça = Iraniana
4ª sub-raça = Celta
5ª sub-raça = Teutônica”

  A doutrina apenas apresenta determinadas idéias ou “revelações”, sem nenhuma evidência aceitável em termos de Ciência. Isso equipara a Teosofia às religiões, que utilizam “Livros Sagrados” com “verdades” indiscutíveis, pode-se acreditar ou não nessas revelações, é uma questão pessoal, de fé. No entanto, pelo menos neste caso, podemos comparar proposições da Teosofia com aquilo que a Ciência atual nos ensina :

  A data 300 milhões de anos a.C. coloca os etéreos representantes da 1ª Raça-Raiz no Período Carbonífero, convivendo com suas formas de vida.

  Segundo a Geologia, não há qualquer evidência de terem existido os continentes da Lemúria ou Atlântida. E o afundamento tão recente de um continente no Oceano Atlântico nem sequer é aceitável.

  A formação das raças como proposto pela Teosofia, apenas reflete idéias aceitas no final do século XIX e já ultrapassadas. O colonialismo estava em pleno vigor e era justificado pela superioridade natural do homem branco, do europeu. Portanto, os negros, considerados mais inferiores, ficaram em último lugar, como descendentes da 3ª Raça-Raiz. Os índios e amarelos ainda conseguiram um lugarzinho melhor como descendentes da 4ª Raça-Raiz. Já os europeus, que eram superiores aos povos conquistados, foram vistos como membros da 5ª Raça-Raiz, o topo da evolução no momento. O quadro apresentado pela Ciência é completamente diferente, já que TODOS os humanos atuais são Homo sapiens, sem exceção. E as raças são apenas o resultado da atuação de fatores como adaptação a um dado meio ambiente e o isolamento geográfico, isto é, as diferenças encontradas são “cosméticas”.

  Em 1859 foi publicada a obra revolucionária de Charles Darwin, “A Origem das Espécies” (The Origin of Species By Means of Natural Selection). Apesar de ter sido bastante cauteloso em suas conclusões, Darwin causou um verdadeiro terremoto, pois o seu livro abria caminho para derrubar a espécie humana do pedestal em que a religião a colocara. O homem acabou por tornar-se um primata evoluído, o que repugnava um grande número de pessoas. Ora, a Teosofia separa completamente a espécie humana dos animais, isto é, são duas linhas de evolução distintas. Segundo a Teosofia, não somos primatas evoluídos. Poderíamos imaginar que um grupo de místicos e intelectuais criou uma doutrina que isola confortavelmente o homem de qualquer origem animal, e volta a colocá-lo em seu pedestal.

  A Sociedade Teosófica surgiu em Nova Iorque, no ano de 1875; as idéias de Darwin eram conhecidas e discutidas já há dezesseis anos, tempo mais do que suficiente para que uma filosofia de conhecimento que oferecesse um quadro alternativo e mais “agradável” fosse inventada.

  A genealogia da espécie humana e a ocupação dos diversos continentes por ela, de acordo com a Ciência, diverge completamente do que é proposto pela Teosofia. E não se trata de especulação sem fundamento, pois o quadro apresentado é o resultado de exaustivos estudos, incluindo a datação radiométrica e/ou análise do DNA de humanos, animais e plantas domésticas, e dos parasitas que acompanharam o homem em suas migrações. A análise das rochas dos diversos extratos geológicos, está incluída nos recursos utilizados, e outros, como a análise do pólen fóssil, são às vezes quase desconhecidos do grande público.


  Aceitar nos dias atuais o esquema de Raças-Raiz da Teosofia é tão sem sentido quanto acreditar que a Bíblia deve ser entendida ao pé da letra ou que é a palavra de Deus. E se os “Mestres da Sabedoria” erraram tão feio nessa questão do aparecimento da espécie humana, como fica a sua credibilidade ? Como fica a credibilidade do resto da doutrina ?

  Do final do século XIX aos dias atuais a Ciência avançou espetacularmente, é difícil enumerar todas as descobertas realizadas. E a Teosofia ? O que tem a apresentar além da contínua repetição das idéias de seus criadores ?

  Sugerimos uma olhada em :

Conceito de Ciência           Método Científico


  Em nossa página "Livros", nos temas "Antropologia" ou "Teoria da Evolução", você encontrará sugestões de leitura.



  E para quem deseja conhecer as origens da Teosofia, recomendamos o livro abaixo, escrito por um não-teosofista e não-espiritualista. O texto é excelente, e através de um cuidadoso trabalho de pesquisa (as Notas e Bibliografia ocupam 40 páginas), o autor revela vários esqueletos que os teosofistas atuais certamente bem gostariam que ficassem esquecidos em seus armários.

O Babuíno de Madame Blavatsky (Místicos, médiuns e a invenção do guru ocidental)

Peter Washington, 1993

O autor vive em Londres, onde é editor geral da Everyman Library. Crítico e ensaísta, foi professor de inglês e literatura européia na Universidade de Middlesex.

EDITORA RECORD (2000), 458 pág.

  “Na primeira metade do século XIX, a Europa e os Estados Unidos viviam um surto religioso, com o cristianismo abrindo alguns espaços para crenças espíritas. Na América, nessa busca do paraíso, fantasmas deixavam de representar o mal e passavam a ser vistos como mensageiros de um outro “plano espiritual”, uma irmandade que supervisionava o destino do homem; já na Inglaterra, por exemplo, o espiritismo fazia parte de uma receita que incluía vegetarianismo, homeopatia, feminismo...
  ...Em O Babuíno de Madame Blavatsky, Peter Washington traça a ascensão e a queda da Teosofia e de Blavatsky, que polemizaram com o darwinismo, propondo, contra a evolução por necessidade adaptativa, um princípio de evolução espiritual. Como Washington destaca, a obra principal de Blavatsky, A Doutrina Secreta, parecia uma sátira à Origem das Espécies, com espíritos interplanetários ocupando o papel dos macacos. O livro também estuda personagens como Gurdjieff, Krishnamurti e outros gurus ocidentais que buscaram inspiração no Oriente para oferecer respostas para a revolta contra o materialismo, o desejo de imortalidade e a busca de um caminho entre ciência e religião.”



Veja também : Theosophy (em "The Skeptic's Dictionary")

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