O autor do polêmico experimento é o médico e virologista francês Luc Montagnier (1932-), um nome bem conhecido,
por ter sido um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina de 2008 devido à descoberta em 1983 (juntamente com
sua equipe) do vírus da AIDS, o HIV. Devemos então ter em mente que sua formação é em biologia e medicina, não
em física. Veja a autobiografia no site oficial do Prêmio Nobel :
nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/2008/montagnier.html
Um artigo relatando a descoberta foi publicado com o nome “Eletromagnetic Signals Are Produced by Aqueous
Nanostructures Derived from Bacterial DNA Sequence” na nova revista “Interdisciplinary Sciences : Computacional Life
Sciences” em janeiro/2009. Além do próprio Dr. Montagnier, o texto é assinado por Jamal Aïssa, Stéphane Ferris,
Jean-Luc Montagnier e Claude Lavallée. Veja a apresentação :
www.springerlink.com/content/0557v31188m3766x/
Resumo do artigo :
"Uma nova propriedade do DNA é descrita : a capacidade de algumas seqüências de DNA de bactérias de induzir ondas
eletromagnéticas em diluições aquosas muito altas. Parece haver um fenômeno de ressonância disparado por ondas
eletromagnéticas de fundo em freqüências muito baixas. O DNA genômico de muitas bactérias patogênicas contém
seqüências aptas a gerar tais sinais. Isso abre caminho para o desenvolvimento de sistemas de detecção altamente
sensíveis para infecções crônicas por bactérias em doenças humanas e de animais.”
O que o Dr. Montagnier e sua equipe afirmam é que o DNA pode modular ondas eletromagnéticas de freqüência muito baixa,
as quais induzem em moléculas de água cópias do DNA original, formando nanoestruturas. Essas nanoestruturas persistem
por tempo razoável e são criadas e amplificadas por efeitos de coerência quântica. Essas “cópias” ou nanoestruturas são
tomadas como DNA legítimo pelo sistema de detecção.
O experimento parece simples, mas detalhes completos não foram ainda divulgados. Dois tubos de ensaio selados são
colocados próximos, dentro de uma bobina de fio de cobre. Todo o aparato é blindado contra interferências (como o
campo magnético da Terra), e a bobina gera um campo eletromagnético na freqüência de 7 Hertz (muito baixa). Um dos
tubos contém fragmentos de DNA com 100 bases de comprimento, e o outro água pura. Depois de 16 a 18 horas, o conteúdo
dos tubos é submetido a um processo rotineiro de detecção de traços de DNA chamado PCR (polymerase chain reaction),
que usa enzimas para fazer cópias do material original. Fragmentos de DNA foram aparentemente obtidos em AMBOS os
tubos, mesmo naquele que deveria conter apenas água ! Só foram obtidas “cópias” do DNA original com o uso de soluções
bastante diluídas, mas não foram obtidas com as altíssimas diluições usadas na homeopatia.
As proposições obtidas a partir do experimento são fantásticas :
- O DNA “modula” ondas eletromagnéticas de fundo com informações sobre sua estrutura (!!!)
- Água pura capta as ondas eletromagnéticas, e através de efeitos quânticos (?), produz nanoestruturas que reproduzem a
estrutura do DNA original (!!!)
- Enzimas podem replicar o DNA original a partir das nanoestruturas “teleportadas” (!!!)
Não é de espantar que tenha causado celeuma e muito ceticismo na comunidade científica. Agora devemos aguardar que o
trabalho seja aceito para publicação em algum periódico científico respeitável, com “revisão por pares” (peer review)
rigorosa e que o experimento seja duplicado por pesquisadores independentes.
Críticos apontaram falhas na apresentação do artigo, que não segue o formato científico usual e a suspeitíssima rapidez
do processo de aprovação : recebido em 03/01/2009, revisado em 05/01/2009 e aceito em 06/01/2009. Não há explicação de
onde surgiu a idéia de medir ou usar ondas eletromagnéticas de baixíssima freqüência ou diluir as amostras. É feita a
afirmação de que somente bactérias patogênicas produziram o fenômeno, o que soa estranho.
O que não ajuda é o fato das afirmativas do Dr. Montagnier lembrarem de modo desagradável as “descobertas” do
desacreditado Dr. Jacques Benveniste (1935-2004) sobre a “memória da água”. Esse imunologista francês de renome mundial
pesquisou na década de 1980 a retenção de informações por moléculas de água e publicou em 1988, junto com colegas de um
instituto francês para pesquisas médicas (INSERM = Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale), um artigo
em que afirmavam ter descoberto que a água é capaz de armazenar informação molecular (mensagens biológicas) e que é
possível gravar, amplificar e transmitir essas informações “memorizadas”. A validade do trabalho foi vigorosamente
contestada por outros acadêmicos, e mesmo tendo apresentado anos depois resultados de experimentos mais rigorosos, o Dr.
Benveniste jamais recuperou a credibilidade. Ele foi inclusive agraciado duas vezes com o Prêmio Nobel Ig para
“Pesquisa Improvável” :
improbable.com/airchives/press/1998/nature100898.html
improbable.com/ig/miscellaneous/ig-98.html
Aparentemente o que chamou recentemente a atenção para o caso foi a decisão do Dr. Montagnier (aos 78 anos de idade),
divulgada em dezembro de 2010, de abandonar a França para dirigir um novo instituto de pesquisas na Universidade
Jiaotong em Xangai. A sua idéia parece que é continuar estudando com mais liberdade esse assunto que despertou tanta
hostilidade na comunidade acadêmica ocidental.
Parece que a água fascina a imaginação das pessoas, não podemos esquecer o pitoresco Sr. Masaru Emoto e suas "mensagens
da água" :
Masaru Emoto e Sua Água Sensitiva