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163.   O Coliseu Abre Suas Jaulas e Masmorras


  Imagine-se na pele dos condenados à morte, à espera de serem exibidos para a multidão, ávida de sangue, e momentos antes de acabar despedaçado pelas feras. Ou imagine a angústia dos gladiadores, com armas nas mãos, a ponto de sair para jogar a vida num combate desumano. Pela primeira vez, o Coliseu de Roma abrirá ao público os seus subterrâneos, o espaço que era usado de bastidor, as gigantescas cortinas do cruel divertimento que os poderosos ofereciam à plebe há quase dois mil anos.

  Impressiona andar pelas galerias, entrar nas masmorras que eram o último lugar dos réus, observar as cavidades que abrigavam as jaulas dos leões, dos tigres, dos ursos. Ainda são bem visíveis os estreitos sulcos verticais, perfurados na pedra, por onde passavam as cordas das dezenas de elevadores que subiam as pessoas, animais e material ao cenário. Assim se ganhava em impacto visual e rapidez. A sofisticação cênica era notável. Algumas abóbadas, arcos e pilares estão num estado excepcional de conservação. Toda esta estrutura permaneceu enterrada durante quinze séculos. Desde janeiro deste ano está sendo restaurada, com especial cuidado com os pontos críticos para evitar desmoronamentos e garantir que os visitantes possam ver a área sem perigo. Os primeiros percursos guiados, em pequenos grupos, começaram no final do verão.

  “O espetáculo durava o dia todo” – explica Barbara Nazzaro, membro da equipe de arquitetos que dirige as obras. “Começava pela manhã com a caça. Depois vinham as execuções e, para acabar, os gladiadores, que eram a parte mais apreciada pelos espectadores.” O show era gratuito. Seu custo era financiado a princípio pelo imperador. Depois pelos senadores e outras personalidades ricas que gostavam de alardear seu poder. Ao fim do dia, a carne dos animais sacrificados era distribuída entre as pessoas. O imperador costumava ficar com as presas dos elefantes. O objetivo de restaurar os subterrâneos e torná-los acessíveis é fazer com que os visitantes do Coliseu tenham uma experiência mais completa, integral, do que significava este lugar. “Aqui embaixo podia-se sentir o cheiro do medo”, continua Nazzaro. “Era escuro, lúgubre, malcheiroso, com pessoas e animais que provavelmente iam morrer. Com certeza não era muito agradável estar ou trabalhar aqui.”

  O Coliseu é visitado por cerca de 6 milhões de pessoas por ano. Há pouco tempo um pequeno segmento desmoronou, quando o recinto estava fechado, e soou o alarme sobre o estado da construção e o grave risco para os turistas. Quem se encarrega da conservação insiste que não existe perigo grave de desmoronamento, que o Coliseu resiste bem, ainda que seja preciso investir muito mais em manutenção e vigilância. A prefeitura de Roma está buscando patrocinadores para conseguir 23 milhões de euros. Ela quer limpar a fachada e até construir um museu. Quanto tempo podem durar as obras para deixar o monumento no ponto? “Alguns milênios”, responde, meio brincando e meio a sério, um dos responsáveis.

Fonte : UOL Notícias, 06/06/2010 (Eusebio Val, Eloise De Vylder)

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